Pela primeira vez, a Abep-UK traz uma exposição para homenagear pesquisadoras e cientistas brasileiras que contribuíram para o avanço e o desenvolvimento social, político e econômico da comunidade. Conheça um pouco da inspiradora trajetória de incríveis mulheres que revolucionaram o Brasil e o mundo.

A exposição “20 cientistas brasileiras que fizeram história” celebra e homenageia pesquisadoras e acadêmicas brasileiras, destacando o trabalho de mulheres pioneiras que proporcionaram contribuições históricas, econômicas e políticas para a sociedade. Essa iniciativa destaca ainda, o fundamental papel de jovens cientistas mulheres que recentemente colaboraram para notáveis descobertas e desenvolvimento de pesquisas ​​para os campos STEM da ciência, biologia e saúde, artes e ciências sociais.

Enfatizamos nossa estima e profunda admiração por todas as mulheres que abriram e/ou continuam desbravando o caminho a ser percorrido pela próxima geração de cientistas brasileiras; e orgulhosamente reconhecemos conquistas e obras de mulheres que se mostraram excepcionais para o Brasil e, também, para o mundo.

As incríveis trajetórias destacadas nessa exposição têm fundamental influência para o progresso da Ciência e a Tecnologia tanto nos âmbitos nacional quanto global; e revalida a importância dessas pesquisadoras para o fortalecimento da ciência na sociedade brasileira.

Esperamos que esta exposição sirva de inspiração em especial para todas nós, cientistas brasileiras a continuarmos a fazer ciência com dedicação e competência. Estimamos ainda, que a história dessas revolucionárias possa ser interpretada como um convite estendido às meninas, adolescentes e jovens adultas brasileiras a considerarem um futuro de descobertas, superação de desafios e participação na ciência.

No dia Internacional da Mulher, celebramos o grande avanço na luta pela igualdade de gêneros na área científica e seguimos engajadas nos esforços para garantir e valorizar o fundamental papel da mulher na ciência. Que o empoderamento e a ruptura de imposições sociais continuem motivando a determinação das mulheres para revolucionar.

Por Aline Gurgel, Luciana Henaut, Marcela Mendes e Vanissa Wanick

#Abep-UK #ExposiçãoCientistasBrasileiras #DiaInternacionaldaMulher #MulheresNaCiência #BrasileirasRevolucionárias

Onde:

9 de Março, 2018 – X ABEP-Conference, Embaixada do Brasil em Londres (recepção da conferência – vagas limitadas)

10 de Março, 2018 – X ABEP-Conference, UCL (evento em conjunto com a conferência – necessário comprar ticket)

Conheça essas mulheres incríveis!

Mayana Zatz

Nasceu em Tel Aviv, em 1947. Mudou-se com a família para a França durante a infância, e finalmente para o Brasil, em 1955. Desde criança interessou-se por biologia. Em São Paulo, cursou biologia na USP, onde teve o primeiro contato com genética humana. Formou-se em 1968, e já no ano seguinte iniciou um trabalho de aconselhamento genético de famílias portadoras de doenças neuromusculares. Ainda pela USP, tornou-se mestre em genética, em 1970 e doutora em genética, em 1974. Entre 1975 e 1977 nos Estados Unidos, Mayana fez pós-doutorado pela Universidade da Califórnia em Los Angeles. Devido ao tratamento precário de doenças musculares no Brasil, ao retornar ao país, Mayana fundou em 1981 a Associação Brasileira de Distrofia Muscular, que trata afetados por distrofias musculares, e onde ainda é diretora presidente. Em 1995 tornou-se pioneira ao localizar um dos genes ligados a um tipo de distrofia dos membros, junto com Maria Rita Passos-Bueno e Eloísa de Sá Moreira. Juntas, também foram responsáveis pelo mapeamento do gene responsável pela síndrome de Knobloch. Em 1996 ingressou na Academia Brasileira de Ciências. Em agosto de 2000, foi condecorada com a grã-cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico. No mesmo ano, recebeu a Medalha de Mérito Científico e Tecnológico do Governo do Estado de São Paulo. Em 2001 na cidade de Paris, recebeu o prêmio latino-americano L’Oréal-Unesco para mulheres na ciência. No mesmo ano, recebeu o prêmio Cláudia. Em 2006 foi a Personalidade do Ano da Ciência segundo a Revista IstoÉ Gente. Em 2009, ganhou o Prêmio México de Ciência e Tecnologia 2008. Em setembro do mesmo ano, Mayana ganhou o Prêmio Walter Schmidt, conferido pela empresa Fanem para destacar personalidades que promoveram o desenvolvimento do setor da saúde brasileira. Geneticista de renome mundial, sua pesquisa tem como foco principal as doenças neuromusculares (distrofias musculares, paraplegias espásticas, esclerose lateral amiotrófica). No entanto, em 2015, abordada pelo diretor da FAPESP, seu time iniciou investigação sobre microencefalia em bebês nascidos de mães infectadas com o vírus Zika. Eles identificaram uma influência genética na predisposição à microencefalia em bebês portadores do vírus. Esse trabalho foi publicado na revista Nature em fevereiro deste ano.

Johanna Döbereiner

Nascida em Aussig, Checoslováquia, Johanna Döbereiner pertencia à uma região cuja língua era o alemão. Ao fim da Segunda Guerra Mundial, a população de língua alemã foi intensamente perseguida e os sobrevivente foram expulsos daquele país. Essa realidade atingiu Johanna, que seguiu com os avós para a Alemanha Oriental, onde trabalhou para o sustento dos três, numa fazenda, ordenhando vacas e espalhando esterco para adubar o solo. Em 1947 iniciou o curso de Agronomia na Universidade de Munique. Em 1950, emigrou para o Brasil, onde começou a trabalhar em Microbiologia do Solo. Em 1951, começou a trabalhar no Laboratório de Microbiologia de Solos do Ministério da Agricultura. Johanna Döbereiner naturalizou-se brasileira em 1956. Em 1957 era pesquisadora assistente do CNPq e, em 1968, pesquisadora conferencista. Entre 1963 e 1969, Johanna iniciou um programa de pesquisas sobre os aspectos limitantes da fixação biológica de nitrogênio (FBN) em leguminosas tropicais. O programa brasileiro de melhoramento da soja, iniciado em 1964, foi influenciado pelos trabalhos de Johanna, tendo representado, na época, uma quebra de paradigma. A técnica de cultivo sugerida por ela teve grande impacto na cultura da soja nacional, o que representa uma economia anual de mais de 2 bilhões de dólares para o Brasil. Em 1997, sua vida pessoal foi marcada por uma enorme perda: seu filho mais novo, Lorenz foi tragicamente assassinado num assalto. O trabalho da dra. Döbereiner permitiu o desenvolvimento de parcerias nacionais e internacionais com a Alemanha, os Estados Unidos e a Bélgica, assim como com outros países do Terceiro Mundo no qual a Embrapa Agrobiologia é considerada centro de excelência. Autora de mais de 500 títulos, Döbereiner foi professora e orientadora de vários cientistas que hoje ocupam posição de destaque na pesquisa e na administração da pesquisa no Brasil. Em 1995, aos 71 anos, a comunidade científica organizou um simpósio internacional Sustainable Agriculture for the tropics: The role of Biological Nitrogen Fixation, do qual participaram 150 cientistas de 30 países. Os anais do encontro foram publicados em número especial da revista Soil Biology & Biochemistry, honraria que poucos expoentes da ciência no mundo obtiveram. Johanna Döbereiner teve assento na Academia de Ciência do Vaticano e foi dos poucos brasileiros a ter o nome presente na lista de indicações do Prêmio Nobel. Em 1996 recebeu o Prêmio por Excelência, Destaque Individual da Embrapa. Morreu aos 75 anos, no Estado do Rio de Janeiro. Em 2002 seus colaboradores e familiares criaram a Sociedade de Pesquisa Johanna Döbereiner para dar continuidade a suas pesquisas.

Marilda Sotomayor

Nasceu no Rio de Janeiro em 13 de março de 1944 e ingressou no curso de licenciatura em matemática na atual UFRJ, onde se formou em 1967. Inspirada pela carreira da mãe, queria, inicialmente, ser professora de matemática no ensino secundário. A identificação com a matemática a levaram ao Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), onde cursou formação complementar à sua graduação, com enfoque na pesquisa. De 1970 a 1972, realizou mestrado em matemática no IMPA. Em 1981, doutorou-se em matemática pela PUC do Rio de Janeiro e IMPA. Na ocasião, desenvolveu para a tese um modelo em economia do crescimento que acabou sendo publicado no prestigioso periódico Journal of Economic Theory. Em seguida, Marilda Sotomayor rumou para um pós-doutorado na Universidade da Califórnia em Berkeley onde pretendia continuar a pesquisa sobre crescimento econômico. Acabou, porém, mudando seu programa de pesquisa para a Teoria dos Jogos, ramo da matemática aplicada que atraiu grandes nomes da matemática no pós-guerra e que é intimamente relacionada com a teoria econômica. A professora Marilda se tornou uma das responsáveis pelo desenvolvimento da teorização e análise de problemas de matching (ramo da teoria dos jogos), onde agentes podem ser pareados conforme suas preferências e de maneira estratégica. Desde então Marilda publicou mais de 40 artigos em periódicos. Seu livro em coautoria com Alvin Roth (Nobel de Economia em 2012) é a referência fundamental na pesquisa de macthing. Foi titular da PUC-RJ, da UFRJ, da USP e atualmente tem uma posição de professor visitante permanente da FGV-RJ e professora visitante em várias universidades no exterior. Ajudou a divulgar e internacionalizar a teoria dos jogos no Brasil, realizando escolas na USP com a presença de vários prêmios Nobel de Economia. Dentre outras honrarias, é fellow da Econometric Society, a mais prestigiosa organização de dedicados à aplicação dos métodos matemáticos e estatísticos à Economia. No Brasil, recebeu o medalha de honra ao mérito da Ordem dos Economistas do Brasil e foi recentemente eleita membro titular da Academia Brasileira de Ciências.

Maria Laura Mouzinho Leite Lopes

Nasceu em Timbaúba (PE), em 1917 e morreu em 2013. Iniciou sua vida escolar em Recife e ali ingressou na Escola Normal de Pernambuco, onde permaneceu até 1934. Em 1935, mudou-se para o Rio de Janeiro com a família, onde concluiu seus estudos. Afinando-se cada vez mais com a Matemática, ingressou nesse curso de graduação. Em 1939, foi aceita para fazer parte do corpo discente do curso de Matemática da Universidade do Distrito Federal, que foi depois transferido para a Faculdade Nacional de Filosofia. Em 1941, formou-se bacharel em Matemática e, em seguida, concluiu a licenciatura. Em 1949, foi a primeira mulher a doutorar-se em matemática no Brasil. Ainda no segundo ano do curso de licenciatura, foi monitora da disciplina de geometria e, em 1943 foi contratada como professora assistente no departamento de matemática da FNFi. Com os físicos César Lattes e José Leite Lopes (com quem se casou sete anos depois), participou da criação do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF). No mesmo ano, passou a ministrar aulas de geometria no curso de engenharia, no recém criado Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA). Viajou para os Estados Unidos, trabalhando por um ano na da University of Chicago. Participou da criação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Com os matemáticos mais influentes do Rio de Janeiro, no ano de 1952, fundou o Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), onde exerceu a função de secretária no período de 1952-1956, e em março de 1952, foi diplomada na Academia Brasileira de Ciências. Foi professora da educação técnica profissional do Estado da Guanabara e chefe de departamento de Matemática da FNFi, até este se tornar Instituto de Matemática da UFRJ. No ano de 1969, com o marido, foi banida do país pelo AI5. Partiu primeiro para Pittsburgh e em seguida para Estrasburgo, onde começou a desenvolver pesquisa na área de Educação Matemática no Institute de Recherche en Enseignement de Mathematiques. Em 1974, voltou para o Brasil e exerceu o cargos de coordenadora de Matemática em escolas. Em 1976, ajudou a fundar o Grupo de Ensino e Pesquisa em Educação Matemática (GEPEM), que foi presidido por ela durante oito anos. De um convênio do GEPEM com o MEC/INEP, coordenou a primeira pesquisa em Educação Matemática no Brasil. Com a Lei da Anistia, ainda durante a ditadura militar, reassumiu sua cadeira no IM/UFRJ. Ainda na diretoria do GEPEM, estabeleceu convênio com a Universidade Santa Úrsula e criou o primeiro curso de pós-graduação lato sensu em Educação Matemática do Brasil. Em 1982, respondendo a uma chamada do Ministério da Educação para o Programa de Integração da Universidade com o Ensino do 1º Grau, um grupo de professores do IM/UFRJ, sob sua coordenação, apresentou um projeto de formação para professores de 1º, 2º e 3º Graus. Em 1983, juntamente com as equipes da Biologia, Física, Geografia, Matemática e Química, implantou o Projeto Fundão, que veio integrar o Sub-Programa de Educação para Ciência, quando da criação do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico. O projeto está, desde 1996, até os dias de hoje sob a égide da professora Maria Laura. Pelo PF/IM-UFRJ elaborou e desenvolveu pesquisa para o INEP, cujo objetivo era detectar as razões das deficiências do curso de formação de professores. Com a equipe do PF/IM–UFRJ, a partir de 1993, criou vários outros cursos de graduação e pós-graduação em Educação Matemática. Ajudou ainda a fundar a Sociedade Brasileira de Educação Matemática (SBEM), e em seguida a regional SBEM/RJ. Foi professora emérita da UFRJ e professora honorária da SBEM. Publicou vários artigos e livros e teve papel pioneiro e importante no desenvolvimento da educação matemática brasileira.

Bertha Lutz

Nasceu em São Paulo, em 1894 e faleceu no Rio em 1976. Era filha do cientista e pioneiro da Medicina Tropical, Adolfo Lutz. Estudou na Europa, onde tomou contato com a explosiva campanha sufragista inglesa. Em 1918, em Paris, licenciou-se em Sciences na Sorbonne e retornou para o Brasil. Desde seu regresso, Bertha tornou-se uma defensora incansável dos direitos da mulher. Suas idéias começaram a ser divulgadas para a sociedade brasileira com a publicação de um artigo em resposta a um colunista de um jornal carioca, segundo o qual os progressos femininos nos EUA e na Inglaterra não exerciam grande influência na vida das mulheres brasileiras. Em sua indignada resposta, publicada na Revista da Semana, Bertha convocava as mulheres brasileiras a fundarem uma associação para lutar por seus direitos. Em 1919, prestou concurso público para bióloga do Museu Nacional, passando a ser a segunda brasileira a ingressar no serviço público. Lá, trabalhou por quarenta e seis anos e construiu uma reputação internacional como cientista. Ainda neste ano, representou o Brasil no Conselho Feminino Internacional, órgão da Organização Internacional do Trabalho, onde foram aprovados os princípios de salário igual para ambos os sexos e a inclusão da mulher no serviço de proteção aos trabalhadores. No Brasil, ajudou a criar a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher, embrião da poderosa Federação Brasileira pelo Progresso Feminino – FBPF. Com Bertha na presidência, esta organização liderou a campanha sufragista no país. Ao longo de seus anos de intensa militância Bertha tentou conciliar a atividade política com seu interesse profissional e aproveitava sempre as viagens para realizar estudos referentes à sua especialidade no exterior. Nos anos 20, as mais importantes batalhas da luta pelo direito ao voto foram travadas no Congresso Nacional. Em novembro daquele ano, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou, por cinco votos contra dois, um projeto de lei que estendia o direito de voto às mulheres. Bertha e suas colaboradoras compareceram ao ato de votação e se posicionaram frente a frente com os senadores durante a sessão. Levaram consigo um abaixo assinado com cerca de 2 mil assinaturas de mulheres, colhidas em todo o país. O documento foi amplamente divulgado na imprensa, como forma de pressionar os congressistas a aprovar a matéria. Apesar dos esforços das feministas, o projeto em curso no Senado não foi transformado em lei. Bertha decidiu cursar Direito na Faculdade do Rio de Janeiro e graduou-se advogada em 1933. Em 1930, um projeto que estendia às mulheres o direito de voto chegou a ser aprovado em segunda discussão naquela casa, mas o movimento político de outubro de 1930 suspendeu as atividades parlamentares. No ano seguinte, quando as forças políticas democráticas pressionavam pela realização de eleições, Getúlio Vargas nomeou Bertha para integrar uma comissão de juristas encarregada de elaborar o Código Eleitoral. Por pouco o direito de voto às mulheres não foi incorporado ao texto legal, uma vez que os membros da comissão se dividiram entre duas posições com respeito ao sufrágio feminino: de um lado aqueles que defendiam que a matéria deveria ser examinada pela Assembléia Constituinte e de outro, a posição defendida por Bertha, os que pleiteavam a imediata inclusão da matéria no bojo do novo Código. Finalmente, em fevereiro de 1932, Getúlio Vargas assinou o decreto do novo Código Eleitoral, onde estava previsto o direito de voto às mulheres. Dando continuidade à ação política empreendida pela FBPF, empenhada em garantir e ampliar as conquistas obtidas, as participantes da entidade se articularam para ter voz na elaboração da nova Constituição, tendo conseguido cerca de cinco mil assinaturas solicitando a nomeação de Bertha para a comissão de juristas encarregada de redigir o ante-projeto da Constituição. Em 1934 promoveram-se eleições gerais. Bertha candidatou-se à Câmara Federal e alcançou a primeira suplência. Assumiu o mandato de deputada federal e, como legisladora, apresentou o projeto de lei do Estatuto da Mulher, que reformava a legislação brasileira quanto ao papel do trabalho feminino. Foi escolhida para presidir a Comissão Especial do Estatuto da Mulher. Propôs a criação do Departamento do Trabalho Feminino, Maternidade, Infância e Lar, como forma de oferecer de assistência pública eficiente à mãe, à criança. A decretação do Estado Novo abortou a carreira de Bertha como parlamentar e arrefeceu a capacidade de mobilização da FBPF. Bertha foi gradualmente se afastando da direção cotidiana da FBPF, até deixar definitivamente o cargo de presidenta da entidade em 1942. Manteve-se ao longo da segunda metade do século fiel à luta das mulheres pela cidadania. Representou o Brasil em diversas conferências. Em 1951, foi premiada como título de Mulher das Américas e, em 1952, foi a representante do Brasil na Comissão de Estatutos da Mulher das Nações Unidas, comissão criada por iniciativa sua. Em 1953 foi eleita delegada do Brasil junto à Comissão Interamericana de Mulheres da União Panamericana de Repúblicas. Quando repercutindo as lutas do movimento feminista internacional a ONU estabeleceu o ano de 1975 como o Ano Internacional da Mulher, Bertha foi convidada pelo governo brasileiro, numa justa homenagem, a integrar a delegação brasileira no primeiro Congresso Internacional da Mulher, promovido pelas Nações Unidas. Este foi o seu último ato em prol da melhoria da condição feminina. Bertha nunca casou. Provavelmente, a ativista política e cientista abdicou do casamento e de constituir família devido às dificuldades de conciliar todos esses papéis.  Como cientista, Bertha atuou por quatro décadas como docente e pesquisadora do Museu Nacional, no Rio de Janeiro e nessa atividade foi reconhecida internacionalmente por sua valiosa contribuição na pesquisa zoológica, especificamente de espécies anfíbias brasileiras. Foi uma apaixonada pela botânica, como pode ser comprovado pela leitura dos relatórios do Museu Nacional. Descobriu entre outras a Liolaremus Lutzae (lagartixa de praia) e várias Hylas. Publicou vários artigos sobre a coleção de Anfíbios Anuros do seu pai, Adolpho Lutz, bem como organizou o primeiro herbário dele, num projeto financiado pelo recém criado CNPq.

Adriane Ribeiro Rosa
É professora de Farmacologia para o curso de medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e do programa de pós-graduação em psiquiatria da mesma universidade. É também pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Translacional em Medicina (INCT) e do Laboratório de Psiquiatria Molecular do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Fez seu doutorado em Ciências Médicas pela UFRGS e pela Universidade de Barcelona (2007) e pós-doutorado no Instituto de Neurociências do Hospital Clínico de Barcelona (2007-2012). Durante esse período desenvolveu um instrumento, conhecido como Prova Breve de Avaliação do Funcionamento Psicossocial (FAST), o qual está sendo amplamente utilizado pela comunidade científica. Também desenvolveu outras duas escalas para aplicação em Psiquiatria: Biological Rhythms Assessment in Neuropsychiatry (BRIAN) e Cognitive Bipolar Rating Assessment (COBRA), ambos validados para o transtorno bipolar. Em 2011, realizou um segundo pós-doutorado junto ao Departamento de Farmacologia da Universidade de Oxford (Reino Unido). Sua linha de pesquisa principal é o estudo da fisiopatologia dos transtornos mentais, cognição, funcionalidade e desenvolvimento de novos alvos terapêuticos. Possui mais de 70 artigos científicos publicados em revistas internacionais e nacionais de alto impacto e alguns capítulos de livros na área do transtorno bipolar. Participou da força tarefa recentemente conduzida pela Sociedade Internacional de Transtorno Bipolar (ISBD) que visa estabelecer diretrizes para o tratamento de pacientes bipolares. Em 2010, foi ganhadora do prêmio Samuel Gershon for Young Investigators concedido pela ISBD e recentemente (2013) laureada com o prêmio para mulheres na ciência concedido pela L’Oréal, Academia Brasileira de Ciências e UNESCO.

Ludhmila Abrahão Hajjar

É professora associada da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), trabalhando no departamento de Cardiopneumologia, sub-departamento da Cardiologia. É diretora clínica do Instituto do Coração da mesma instituição (InCor-HC-FMUSP), coordenadora da pós-graduação em Cardiologia da FMUSP, coordenadora da Unidade de Terapia Intensiva Cirúrgica do InCor, coordenadora da UTI do Instituto do Câncer da FMUSP (ICESP). Também é membro do conselho diretor do ICESP, membro do Departamento de Cardiopneumologia do InCor da FMUSP, da Coordenação Geral da Pós-graduação da FMUSP e da Congregação da FMUSP. Desde 2014, coordena o comitê de Cardiointensivismo da Associação de Medicina Intensiva Brasileira. Graduou-se em medicina na Universidade de Brasília (2000), fez Residência de Clínica Médica e de Cardiologia no Hospital das Clínicas e no Instituto do Coração (InCor) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (2001-2004). Doutorou-se na mesma instituição, em 2011. Passou a ser professora da Faculdade de Medicina da USP em 2012 e obteve o título de livre-docência em 2014, na área de Cardiologia Crítica da FMUSP. Suas linhas de pesquisa têm como foco a cardiologia crítica, a terapia intensiva cirúrgica, a terapia intensiva no paciente oncológico e a cardio-oncologia. Mais especificamente, têm ênfase em identificar fatores preditores de morbi-mortalidade em cirurgia cardíaca, cardiotoxicidade em pacientes oncológicos e avaliar os marcadores de resposta inflamatória em pacientes submetidos à cirurgia cardíaca; estudar a profilaxia e tratamento da cardiotoxicidade em pacientes oncológicos; avaliar o impacto de estratégias distintas de transfusão de sanguínea na evolução dos pacientes críticos clínicos e cirúrgicos. Recebeu o prêmio CAPES de melhor tese de doutorado e o prêmio para mulheres na ciência concedido pela L’Oréal, Academia Brasileira de Ciências e UNESCO.

Maria da Conceição de Almeida Tavares

Nasceu em Anadia, Portugal, em 1930. Casada duas vezes, é mãe de dois filhos e tem dois netos. Diplomou-se em matemática na Universidade de Lisboa, em 1953. Durante o regime fascista português, veio para o Brasil, em 1954. Interessada pelo cenário de desigualdade social no país, mudou de profissão. Matriculou-se no curso de Economia da UFRJ, onde se graduou com suma cum lauda em 1960. É amplamente considerada como a mais brilhante economista brasileira. Ainda estudante, trabalhou no BNDES, fazendo um estudo matemático sobre a distribuição de renda no Brasil sob uma ótica regional, ao contrário de usar categorias européias. Cientista rigorosa, de sólida formação intelectual, foi professora de várias gerações de economistas, no atual Instituto de Economia da UFRJ e no Instituto de Economia da UNICAMP. Foi presa em 1975, no Aeroporto do Galeão no Rio de Janeiro, pelo regime militar. Ajudou a criar a pós-graduação em economia no Brasil. Fora do meio acadêmico tornou-se conhecida como militante da causa democrática e crítica feroz da política econômica do regime militar. Seus livros e artigos escritos ao longo de mais de 40 anos de atividade intelectual, demonstram sua preocupação permanente em pensar o Brasil. Um dos seus ensaios mais brilhantes, Auge e Declínio do Processo de Substituição de Importações (1972), é um marco no estudo do processo de industrialização do Brasil e tornou-se um clássico na literatura econômica da América Latina. Vários de seus textos são obrigatórios no ensino de economia no país. Essas obras e as dezenas de artigos que tem publicado sobre a economia brasileira a credenciam como a principal estudiosa do desenvolvimento nacional. É conhecida nacionalmente pela forma apaixonada e veemente com que defende suas idéias e ataca a pobreza e a exclusão. Conceição foi ainda pesquisadora da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL/ONU) e pesquisadora visitante de inúmeras universidades estrangeiras e órgãos internacionais. Em grande medida, o seu prestígio acadêmico contribuiu para a sua eleição para a Câmara Federal, pela legenda do PT/RJ, em 1994, com uma expressiva votação. No parlamento, destacou-se como uma crítica feroz da política econômica implantada pelo governo, chamando atenção dos colegas parlamentares para os riscos da política cambial e para a destruição do patrimônio público nacional. Foi membro da Comissão de Finanças da Câmara Federal onde participou de debates memoráveis com o ministro da Fazenda. Terminado o mandato em 1998 não quis voltar ao Parlamento Brasileiro. É comentarista econômica da Folha desde 1993. Recebeu inúmeros prêmios, distinções e títulos nacionais e internacionais, dentre os quais o Grau de Oficial da Ordem de Rio Branco, do Ministério das Relações Exteriores (1986) e a Ordem ao Mérito do Trabalho, do Ministério do Trabalho (1987). Publicou doze livros, dezenas de capítulos de outros livros e artigos em revistas nacionais e internacionais. Por ocasião de seus 80 anos foram lançados pela comunidade acadêmica dois ensaios em sua homenagem.

Ruth Sonntag Nussenzweig

Ruth Sonntag Nussenzweig nasceu em 1928, em Viena. Emigrou para o Brasil ainda menina. Entrou na Escola de Medicina da USP em 1948, onde conheceu seu marido, e graduou-se em 1953. Teve três filhos. Sua formação científica iniciou-se durante o estudo universitário, no Departamento de Parasitologia da USP. Trabalhou vários anos no problema da transmissão da doença de Chagas pela transfusão sanguínea e sua prevenção. Mostrou que a doença pode ser adquirida por transfusão sangüínea e que a adição de violeta de genciana ao sangue infectado previne sua transmissão. Em 1958, mudou-se para a França para realizar um pós-doutorado em bioquímica, no Collège de France. Em 1960, retornou ao Brasil onde ficaria por pouco tempo. Com o objetivo de aprender e avançar ainda mais se mudou para os Estados Unidos para trabalhar na New York University. Em 1964, decidira voltar ao Brasil, então sob o regime militar. Como o clima político não era favorável à pesquisa, retornou à New York University logo após a conclusão de seu doutorado pela USP. O brilhante desempenho de Ruth lhe conseguiu a vaga de imunologista para a cadeira de parasitologia. Na época, a biologia da malária estava sendo estudada no departamento e Ruth iniciaria então estudos a respeito da resposta imune contra a doença. Foi inicialmente indicada como professora assistente (1965), mas rapidamente virou professora associada (1968) e professora plena (1972). Durante este período, Ruth fez uma grande descoberta, demonstrando em animais de laboratório que era possível obter proteção contra o parasita causador da malária por meio da irradiação do micróbio. Esta descoberta foi publicada em 1967, na revista Nature. A descoberta gerou imenso entusiasmo e serviu de base para as pesquisas que visavam desenvolver uma vacina contra a malária. Em 1976 foi indicada professora titular e chefe da Divisão de Parasitologia do Departamento de Microbiologia e, em 1984, tornou-se professora titular do Departamento de Parasitologia Médica e Molecular da NYU. Até hoje, em nenhuma outra faculdade de medicina dos Estados Unidos há a cadeira de Doenças Parasitárias. As pesquisas desenvolvidas por Ruth no campo da Parasitologia e de Doenças Tropicais, com ênfase em malária, lhe trouxeram reconhecimento internacional. Durante sua carreira, integrou diversos grupos de trabalho e missões e prestou consultoria à Organização Mundial de Saúde, entre outras, em atividades voltadas para o controle e a erradicação de doenças tropicais, como a Doença de Chagas e a malária. Ruth tem mais de 200 trabalhos publicados nas revistas mais conceituadas nacionais e internacionais e foi honrada com inúmeros prêmios e condecorações, nacionais e internacionais. Em 1998, foi condecorada pelo Presidente da República com a Ordem Nacional do Mérito Científico classe Grã-Cruz. Recentemente, Ruth estabeleceu uma colaboração com uma equipe da Fiocruz, no Brasil, para testar uma vacina contra a malária utilizando o vírus da febre amarela como vetor. Os resultados têm se mostrado bastante promissores. Ruth é, sem dúvida, uma das mais importantes pesquisadoras brasileiras sobre malária, e está entre as principais do mundo.

Maria Brasilia Leme Lopes

Viveu de 1909 a 1996 e foi importante tanto para a psicologia quanto para a medicina. Sua vida foi marcada pela participação na divulgação científica e pela luta em prol da inserção feminina na ciência. Formou-se professora pela Escola Normal da Prefeitura do Distrito Federal em 1925, e médica, em 1936, pela Faculdade de Medicina da atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Sua excelência acadêmica fez-se mostrar já nos processos seletivos: obteve a primeira colocação em ambos. Como normalista, recebeu lições de psicologia dos grandes nomes da área em sua época. Portanto, não é de se estranhar que após sua formação iniciasse seus trabalhos neste campo. Foi assistente voluntária e chefe da Seção de Psicologia Aplicada da Liga Brasileira de Higiene Mental de 1928 a 1939, além de ter dirigido o Laboratório de Psicologia Aplicada inaugurado em 1933, no Rio de Janeiro. Esta experiência resultou na publicação de três artigos, na revista da Liga, sobre o uso e validação de testes psicológicos. Estes artigos fazem parte dos primeiros escritos femininos da psicologia no Brasil. Eles são uma pequena exceção em um meio que, à época, ainda era dominado por figuras masculinas e, portanto, representam um movimento de ruptura e abertura. Durante este período na Liga, Maria Brasília realizou o curso de Psicologia Aplicada e também o de Fisiologia Nervosa. Estes cursos faziam parte de dois laboratórios experimentais citados como importantes referências entre os primeiros no Rio de Janeiro. Seus trabalhos em psicologia aplicada foram interrompidos em 1944, quando, após a conclusão do curso de medicina, ingressou no campo da hemoterapia. Foi presidente da Comissão Nacional de Hemoterapia, a segunda mulher eleita para participar da Academia Nacional de Medicina, recebendo o título de membro honorário em 1980, aos 71 anos. Lutou pela abertura do campo científico às mulheres: participou da fundação da Associação Brasileira de Mulheres Médicas (ABMM) em 1960 e a presidiu durante cinco anos (1966-1971), período no qual apoiou eventos como o XIV Congresso da Associação Internacional de Médicas que ocorreu no Rio de janeiro em 1974. Sua trajetória inicial poderia confundir-se com a de tantas outras mulheres brasileiras do início do Século XX, cuja inserção no mercado de trabalho ocorreu por meio dos cursos normais, ministrando aulas para a educação primária, exercendo funções tipicamente associadas ao cuidado maternal. Porém se distancia do comum por seu empenho e dedicação em conquistar um espaço ocupado quase exclusivamente por homens, o da ciência. Seu perfil é tanto de uma ativa pesquisadora quanto de uma pesquisadora ativista pela visibilidade da mulher no campo da ciência.

Maria Judith Zuzarte Cortesao

Nasceu em 1914, no Porto e faleceu em 2007, em companhia de alguns de seus oito filhos, em Genebra. Aos 17 anos deixou Portugal, com a família, em razão de perseguição política, pelo governo ditatorial daquele país. Exilou-se em vários países europeus até chegar ao Brasil em 1940. Nesse período, conviveu com importantes nomes da intelectualidade brasileira, como Manuel Bandeira, Murilo Mendes, Sérgio Buarque de Holanda, Assis Chateaubriand e Cecília Meireles. Residiu ainda no Peru e no Uruguai. Durante o regime militar, no início dos anos 1970, foi presa e torturada, sob a acusação de ligação com os guerrilheiros tupamaros. Nas décadas de 1980 e 1990, estabeleceu-se em Brasília e depois no Rio Grande (RS), em cuja Universidade Federal (FURG), foi professora de Educação Ambiental Marinha no primeiro programa de pós-graduação em Educação Ambiental brasileiro. Dedicou-se academicamente a diversas áreas do conhecimento, dentre as quais Neuroendocrinologia, Matemática, Genética, Reprodução Humana, Climatologia, Antropologia, Espeleologia e Ecologia, além de Letras. Ministrou aulas em diversas universidades, entre elas, Université Paris-Sorbonne, onde também doutorou-se em Letras, Université de Nanterre, Université de Caen, Open University, Universidades portuguesas de Lisboa, de Aveiro, de Trás-os Montes, de Évora e do Porto e na Universidade Federal do Rio Grande. Cidadã de ideias mais do que de países, ela escreveu dezesseis livros, participou da elaboração de seis filmes, foi uma das criadoras do programa Globo Ecologia e da Ong ARCA e consultora das Ongs SOS Mata Atlântica e Instituto Acqua. Além desse ativismo ambiental, ela idealizou, como médica, o Centro de Informação e Formação de Médicos e Cirurgiões de Doenças do Aparelho Locomotor de Brasília, no Hospital Sarah Kubitschek, e representou o Brasil e outros países em diversas comissões internacionais. Atavicamente ligada ao mar (era velejadora e uma grande marinheira), participou diretamente na criação do Museu Antártico e prestou consultoria ao Museu Oceanográfico Professor Eliezer de Carvalho Rios e ao Ecomuseu da Ilha da Pólvora, todos em Rio Grande. Na década de 1990, desenvolveu diversas pesquisas dentre as quais se destacam as realizadas na Estação Ecológica do Taim, o Projeto Asas Polares, o Projeto Mar de Dentro, que objetiva despoluir e preservar as águas da Laguna dos Patos e seus ecossistemas. Foi inspiradora do Projeto Museu do Pão, ativo, hoje na cidade gaúcha de Ilópolis. Propôs o Projeto Alfabetização de Mulheres Pescadoras, tendo composto um livreto de alfabetização de adultos. Dotada de uma visão e uma postura sempre à frente do seu tempo, compreendeu e difundiu a necessidade de preservação ecológica antes mesmo de o ambientalismo se tornar um movimento organizado, já nos anos 1980. Participou das duas primeiras expedições brasileiras à Antártida, em 1982 e 1983. Durante as viagens, coordenou 40 projetos de pesquisa chancelados pela Secretaria de Meio Ambiente, além da expedição ao arquipélago de São Pedro e São Paulo, anos depois. Em 2002, já com a saúde bastante debilitada, planejou uma 2ª expedição (que não chegou a concretizar-se) a este arquipélago. Por ocasião da Assembleia Nacional Constituinte, onde foram votadas leis atinentes ao meio ambiente, ela arrebanhou parceiros para a causa do meio ambiente, que era entendido por ela na sua acepção mais ampla e complexa, como formado pelas relações humanas, sociais, ecológicas, econômicas, macroeconômicas, entre outras. Sofreu algumas birras de burocratas, a quem enlouquecia com seus métodos heterodoxos de agir dentro do Estado, mas parecia não se importar. Um dos seus últimos desejos, já com idade avançada, foi o de conseguir uma bolsa de estudos para estudar Teologia Ecumênica na Suíça. Já muito doente e fragilizada, Judith mudou-se para a Suíça em 2002, para cuidar da saúde e para, estar com os filhos e filhas. Em 2003, retornou ao Brasil para receber do presidente Lula a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Cultural Brasileiro, mais um dentre inúmeros prêmios e condecorações que recebeu, incluindo o prêmio da NASA por uma vida dedicada ao intercâmbio científico nacional.

Sonia Gumes Andrade

Nasceu em Caetité (BA), em 1928, em uma família letrada, com grande influência cultural na cidade. A mãe foi a primeira professora de Caetité a lecionar para uma classe de homens, entre os quais, encontrava-se Anísio Teixeira. O avô fundou o primeiro jornal do alto sertão baiano. Sonia mudou-se para Salvador em 1941 para prosseguir os estudos na capital. Entre 1941 e 1947, fez os cursos ginasial e científico e, em 1948, ingressou na Faculdade de Medicina da atual UFBA, onde se diplomou em 1953. Nesse mesmo ano, casou-se e, desse casamento, teve seis filhos. Desde muito cedo em sua formação médica, aproximou-se da patologia, realizando atividades discentes no Hospital das Clínicas como estagiária (1950-1951) e interna por concurso (1952-1953) na 2ª Cadeira de Clínica Médica. Foi também atraída para o Instituto de Saúde Pública, incorporado à Fundação Gonçalo Moniz, fundada em 1950. O Instituto funcionaria simultaneamente como um laboratório central de saúde pública, e um laboratório de pesquisas biológicas. Ali, teve a oportunidade de frequentar, entre 1951 e 1952, o Curso de Aperfeiçoamento Técnico. Ministrado por renomados professores e pesquisadores do Rio e de São Paulo, o curso tinha como propósito o aprendizado e o treinamento prático de técnicas básicas de pesquisa em diversos campos: bacteriologia, micologia, helmintologia, entomologia, protozoologia, histologia e anatomia patológica. Essa experiência a levaria a se aproximar da pesquisa experimental, inicialmente como estagiária e assistente voluntária (sem remuneração) e, em 1965, como patologista contratada, com bolsa do então Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq). Nessa função, permaneceu até o desaparecimento da Fundação Gonçalo Moniz em 1973, quando o seu próprio Laboratório de Chagas Experimental foi transferido para o Anexo I da Faculdade de Medicina da Bahia. Embora tenha adquirido uma ampla formação em patologia das doenças parasitárias, situando-a na linhagem científica da medicina tropical brasileira, cujo berço foi a Escola Tropicalista Baiana, Sonia se notabilizou pelos estudos em doença de Chagas experimental. Seu interesse científico nesse campo se manifestou desde o início de sua integração ao Laboratório de Patologia, onde produziu, em 1955, os primeiros trabalhos. Nos anos 60, seus estudos se consolidariam em torno das diferentes cepas do Trypanosoma cruzi, resultando em trabalho original em que propõe a classificação das cepas conforme os caracteres biológicos e histopatológicos do protozoário em tipos biológicos ou biodemas (Tipos I, II e III). Nas décadas seguintes, a pesquisa evoluiria no campo da patologia experimental e da imunopatologia da doença de chagas em diferentes modelos experimentais, ampliando o foco de atuação do Laboratório. Desde então, reúne um grupo de pesquisadores dedicados ao desenvolvimento de projetos sobre processos patológicos e a resposta aos quimioterápicos, além de desenvolver investigações sobre a regulação do sistema imune em diferentes condições, como nas infecções e doenças autoimunes, visando o tratamento com terapias celulares em humanos com diferentes tipos de patologia. Após uma longa experiência como pesquisadora, com estágios de pesquisa em centros e universidades estrangeiras, ela realizou o curso de doutorado em patologia humana na UFBA, entre 1984 e 1986, dirigindo-se em seguida para um estágio pós-doutoral no Instituto Pasteur de Lyon, onde permaneceu entre 1986 e 1987. Paralelamente à pesquisa, dedicou-se à docência desde que se formou. Foi efetivada por concurso público como professora assistente em 1973. Nesse mesmo ano, foi fundado o curso de pós-graduação em patologia humana, ao qual Sonia se integrou como docente, assumindo a coordenação entre 1975 e 1995. Conceituada em sua área de atuação, Sonia tem 124 artigos publicados em importantes revistas nacionais e internacionais. Até 2004 foi bolsista de produtividade em pesquisa 1-A do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do qual foi membro de Comitê Assessor entre 1986 e 1987, e coleciona uma série de prêmios e títulos científicos, dentre os quais a Medalha do Centenário do Instituto Oswaldo Cruz, o diploma de Honra ao Mérito pelos inestimáveis serviços prestados a saúde pública e ao desenvolvimento da ciência da Assembleia Legislativa do Estado da Bahia e a medalha do Centenário da descoberta da Doença de Chagas. Ela também integra várias associações científicas nacionais. Sonia Andrade se aposentou como professora adjunta da UFBA em 1995, e no ano seguinte como pesquisadora titular do Centro de Pesquisas Gonçalo Moniz, onde até os dias atuais permanece trabalhando em seu laboratório.

Sonia Dietrich

Nasceu em São Paulo em 1935 e lá morreu, em 2012. É considerada uma das pioneiras no desenvolvimento da fisiologia e bioquímica de plantas. Formou-se em história natural na USP em 1957. Já em 1960 trabalhou no grupo de um bioquímico argentino ganhador do Prêmio Nobel de 1970 pela descoberta do mecanismo principal da síntese de carboidratos em seres vivos. De 1964 a 1966 trabalhou na University of Wisconsin-Madison e de 1967 a 1969 realizou seu doutorado em bioquímica de alcaloides na University of Saskatchewan no Canada. Sonia trabalhou por toda a carreira (1959-1992) e posteriormente como Professora Visitante (1992-2012) no Instituto de Botânica de São Paulo, onde tomou a liderança do atual Núcleo de Pesquisa em Fisiologia e Bioquímica. A sua liderança também consolidou um dos mais fortes grupos de pesquisa em carboidratos de plantas do Brasil e formou estudantes através dos programas de pós-graduação em Biologia Molecular da Universidade Federal de São Paulo, Botânica da USP e da UNICAMP. Orientou 27 teses e dissertações ao longo de 37 anos de carreira, produzindo 102 trabalhos científicos. Já aposentada, Sonia liderou a formação e foi a primeira coordenadora do curso de pós-graduação em Biodiversidade, o primeiro do país. Na Ciência, conduziu estudos pioneiros da busca de polissacarídeos (notadamente os de parede celular e os frutanos) em plantas nativas do Brasil, descobrindo um grande número de novas espécies úteis e ao mesmo tempo ajudando a compreender a importância destes compostos na evolução biológica em plantas. Suas possibilitam hoje o desenvolvimento de aplicações de polissacarídeos de plantas brasileiras em biotecnologia. Ao mesmo tempo, deu início aos principais trabalhos que levaram ao estabelecimento de modelos biológicos de espécies nativas para os estudos fisiológicos e bioquímicos, ajudando a compreender vários dos mecanismos de estabelecimento de espécies brasileiras à Mata Atlântica e ao Cerrado. Neste sentido, a sua atuação científica pioneira abriu as portas para o conhecimento do funcionamento da biodiversidade brasileira o que contribuiu com os primeiros esforços de conservação da biodiversidade. Ela foi também uma das pesquisadoras pioneiras em estudos dos mecanismos de resposta de defesa de plantas, produzindo trabalhos fundamentais, como por exemplo nas respostas bioquímicas do cafeeiro à ferrugem, que tem reconhecimento internacional. Em muitas oportunidades, mesclou as duas linhas de pesquisa e produziu trabalhos em que estudou o papel dos polissacarídeos de parede celular nos mecanismos de defesa das plantas. Figura de grande importância no cenário científico nacional, participou ativamente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, do Conselho Deliberativo do CNPq e foi membro da Academia Brasileira de Ciências. Nestes foros, foi uma das pesquisadoras que ajudou a consolidar a estabilidade do financiamentos à pesquisa que o Brasil apresenta desde o início do século XXI. Sua atuação foi fundamental em São Paulo, onde foi presidente da Comissão Permanente de Tempo Integral (CPRTI) por vários anos e estabeleceu a carreira de pesquisador científico nos 18 Institutos de Pesquisa de São Paulo. O seu rigor e valorização da qualidade científica lhe valeu o apelido de Dama de Ferro, sendo temida e respeitada por sua inteligência sagaz e profundo senso crítico. Personagem fundamental para a Biologia no Brasil, foi Vice-presidente do Conselho Federal de Biologia e atou como um dos principais pesquisadores na luta para a regulamentação da carreira de biólogo em nosso país. No cenário internacional, fundou a Rede Latinoamericana de Botânica (RLB) e foi membro da Rede Latinoamericana de Biologia, (RELAB) sendo uma das responsáveis por iniciar a integração científica na região através da criação de cursos e programas de intercâmbio de estudantes. A sua última contribuição foi transformar a Revista Brasileira de Botânica em Brazilian Journal of Botany (Springer), oficialmente registrado um dia antes de sua morte.

Virginia Leone Bicudo

Nasceu em São Paulo, em 1910 e morreu em 2003. Filha de imigrantes italianos, estudou no bairro da Luz. A mãe era babá e o pai foi funcionário dos Correios. Assim como as três irmãs, Virgínia fez o curso normal, mas não chegou a ser professora, pois o pai não permitiu que fosse para o interior do Estado trabalhar em condições consideradas precárias naquele tempo. Fez o curso de educação sanitária no Instituto de Higiene de São Paulo, em 1932. Sobre o pai, Virgínia lembrava o perfil ambicioso e corajoso ao enfrentar as dificuldades decorrentes da discriminação racial como, por exemplo, o projeto de estudar medicina, do qual acabou desistindo para cuidar da família. Ela ressaltava que seu convívio com os negros foi pequeno nesse período. Após o curso de educação sanitária, tornou-se funcionária da Diretoria do Serviço de Saúde Escolar do Departamento de Educação, onde tinha como atribuição dar aulas de higiene em escolas do Estado de São Paulo. A partir dessa experiência, interessou-se pela sociologia e iniciou o curso de ciências sociais na Escola Livre de Sociologia e Política em 1936. Pouco depois, teve contato com uma psicanalista alemã que motivou nela o interesse pela psicanálise, depois ampliado pela formação e contato com outros profissionais da área. No início da década de 1940, começou a trabalhar na Escola Livre de Sociologia e Política, com a oferta das disciplinas higiene mental e psicanálise, que se transformou em importante ferramenta na difusão da psicanálise no Brasil nas décadas seguintes. Em 1942, Virgínia iniciou o mestrado na mesma escola. Lá, teve a oportunidade de articular seus interesses pela sociologia e pela psicanálise ao estudar a questão racial e os conflitos raciais existentes entre brancos e negros. Sua dissertação de mestrado foi a primeira defendida no Brasil sobre a temática, tendo, ao contrário do seu orientador, compreendido que o preconceito racial é uma variável relevante na organização e produção social. De forma inovadora, com articulação entre a antropologia, a sociologia e a psicologia social, Virgínia investigou as atitudes raciais e sociais de grupos de pais e mães de estudantes de escolas públicas em bairros populares e de classe média paulistana, por meio de entrevistas e estudos de caso. Em 1945, tornou-se professora-assistente da cadeira de higiene mental da Faculdade de Higiene e Saúde Pública da USP. Foi convidada para integrar a equipe do Projeto Unesco em São Paulo. A Unesco realizou no início da década de 1950 diversas pesquisas sobre as relações raciais, com a estruturação de uma equipe de pesquisadores e professores de várias universidades. Em São Paulo, o Projeto Unesco foi coordenado por Roger Bastide e Florestan Fernandes. Virgínia deu continuidade aos interesses do mestrado com uma pesquisa sobre atitudes raciais entre estudantes das escolas públicas no município de São Paulo e membros da comunidade escolar. Assim como a sociologia, a psicanálise permanecia no centro de seus interesses. Em 1954, foi contratada pelo Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Pouco depois, iniciou uma temporada de estudos psicanáliticos em Londres, onde permaneceu até 1959. Nesse período, frequentou o Instituto de Psicanálise da Sociedade Britânica, teve contato com psicanalistas reconhecidos e se especializou no tratamento de crianças. Nas décadas seguintes, continuou com o trabalho de divulgação e institucionalização da psicanálise no Brasil. Publicou o livro Nosso Mundo Mental, fruto de um programa semanal de rádio. Em 1970, criou o Grupo Psicanalítico de Brasília, foi professora na Universidade de Brasília (UnB) e um pouco depois fundou o Instituto de Psicanálise de Brasília. Psicanalista e socióloga reconhecida, Virgínia tornou-se uma referência nos estudos raciais e foi a primeira pesquisadora e professora negra a ocupar um lugar de destaque na divulgação e construção da psicanálise no Brasil.

Heleieth Saffioti

Nasceu em Ibirá (SP), em 1934 e faleceu em 2010, em São Paulo. Graduou-se em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, em 1960. Suas primeiras pesquisas sobre a condição feminina datam desta década. Elas foram o material utilizado na construção da sua tese de livre-docência defendida em 1967, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da UNESP de Araraquara, orientada pelo professor Florestan Fernandes. Este trabalho foi uma sólida contribuição ao estudo da posição da mulher na sociedade, e das representações a que dá lugar. Esta tese foi publicada pela Editora Vozes, em 1976 com o título de A Mulher na Sociedade de Classes: Mito e Realidade. O livro não separa o problema da mulher dos problemas gerais da sociedade, mostrando de forma particular as relações entre a posição da mulher e o capitalismo. Com a análise da condição da mulher no Brasil, este projeto foi qualificado como ambicioso e complexo, mas executado com rara mestria. A efervescência do movimento de mulheres nos anos setenta transformaram este livro em um bestseller e a professora Heleieth, então regente da cadeira de Sociologia na UNESP, numa referência nacional para os estudos feministas. Sua trajetória intelectual, ao longo das últimas décadas, como agitadora no meio acadêmico da temática da condição feminina numa perspectiva marxista, levou-a, assim, das salas de aula de Araraquara, onde era professora titular da UNESP, para todo o Brasil, participando de seminários, congressos, orientando dissertações de mestrado e doutorado, tornando-se uma das mais prestigiadas pesquisadoras sobre a questão de gênero no Brasil. Assim, Heleieth tornou-se pesquisadora do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq) junto ao Departamento de Psicologia da USP, professora participante da PUC-SP e professora visitante na Faculdade Serviço Social da UFRJ. Publicou diversos artigos em periódicos nacionais e estrangeiros. Em 1995, Heleieth foi indicada ao Prêmio Nobel da Paz, juntamente com outras 51 brasileiras. Casou-se e teve um filho. Em 2012, a Câmara Municipal de São Paulo criou o Prêmio Heleieth Saffioti, lançado em 2013. Este Prêmio destina-se às mulheres e entidades de classe que tenham se destacado no combate a discriminação social, sexual e racial.

Carmen Portinho

Nasceu em Corumbá (MS), em 1903 e faleceu no Rio, em 2001. Mudou-se muito cedo para o Rio de Janeiro. Participou ativamente do movimento feminista, lutando desde 1919 junto de Bertha Lutz e outras mulheres pelo direito ao voto. Foi uma das fundadoras da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino e também sua vice-presidente. Esteve à frente das lutas femininas pela conquista da cidadania nas décadas de 1920 e 1930. Batalhadora incansável pela igualdade entre gêneros, foi a terceira mulher a se graduar em Engenharia Civil pela Escola Politécnica da antiga Universidade do Brasil, em 1925. Foi também ativista pela educação e pelo reconhecimento do trabalho feminino fora de casa. Assim, em 1929, junto com outras mulheres universitárias, fundaram a União Universitária Feminina, entidade dedicada a incentivar as mulheres no mundo do trabalho. Fez uma brilhante carreira profissional. Ao colar grau, Carmem foi nomeada engenheira-auxiliar pelo então prefeito do Distrito Federal. Dessa forma, ingressou no quadro de engenheiros da Diretoria de Obras e Viação da Prefeitura da Capital Federal. Ainda no último ano do curso de engenharia, começou a dar aulas no prestigioso colégio Pedro II. Contudo, o fato de uma mulher ministrar aulas num internato masculino foi um escândalo. O próprio ministro da Justiça quis interferir na nomeação dela para o colégio, mas não conseguiu tirá-la da cátedra. Assim sendo, Carmem permaneceu lecionando por mais três anos, até decidir pedir demissão. Como a Diretoria de Viação e Obras era ocupada por um velho engenheiro, que não confiava muito na competência feminina, a primeira tarefa que ele a incumbiu foi a de vistoriar um pára-raios instalado no alto do antigo edifício da prefeitura. Para realizar essa tarefa, Carmem teria que subir no telhado do prédio. Por sorte, a jovem tinha treinamento em alpinismo. Suas desventuras com esse primeiro chefe não pararam por aí. Desconfiada de que não seria promovida por mérito, devido ao fato de ser mulher e pelo fato de que, à época, as promoções por merecimento dependiam de “pistolão”, ainda que ela fosse uma funcionária competente e dedicada ao trabalho, Carmem arquitetou um plano para obter a sua merecida promoção. Naquela época, o presidente da república, Washington Luiz, dava, toda segunda-feira, uma audiência pública. Carmem apresentou-lhe sua carreira e pediu a ele que a apresentasse no pleito de promoção. Ele assim o fez e Carmem foi promovida a engenheira de segunda classe. Casou-se e se separou poucos anos depois, casando-se de novo anos mais tarde. Ainda nesta década, fez o primeiro curso de urbanismo do país. Poucos anos depois, candidatou-se a uma bolsa do Conselho Britânico para estagiar junto às comissões de reconstrução e remodelação das cidades inglesas destruídas pela guerra, como uma forma de complementar seu curso de urbanismo. Aprovada a bolsa, Carmem seguiu para a Inglaterra, onde chegou ainda com a guerra em curso. Foi uma experiência importante, pois pôde sentir o problema da falta de moradia e acompanhar de perto as propostas e esforços para sua solução. Voltando da Inglaterra, fez uma proposta ao prefeito do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, de criação de um Departamento de Habitação Popular. Tornou-se assim uma das responsáveis pela introdução do conceito de habitação popular no Brasil, uma vez que, evidentemente, as desigualdades sociais brasileiras faziam com que a moradia também fosse um problema grave na própria capital. O prefeito aceitou a proposta e acabou nomeando-a diretora do novo departamento. Assumindo o departamento, Carmem propôs e construiu, na década de 1950, vários conjuntos residenciais. A construção desses projetou-a no Brasil e no exterior como engenheira de renome. Acabou por deixar a carreira pública, e, na iniciativa privada, assumiu a construção do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Em meados de1960, criou a Escola Superior de Desenho Industrial, uma experiência pioneira para a época. Naqueles anos, mesmo no exterior, havia poucas escolas de desenho industrial, das quais, a mais famosa era a Bauhaus, na Alemanha. Coube, assim, a Carmem dirigir, por vinte anos a Escola de Desenho Industrial, depois incorporada à UERJ. O movimento feminista, como homenagem a sua luta em prol das mulheres brasileiras, por meio do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM) convidou-a, entre outras mulheres, em 1987 para entregar ao deputado Ulisses Guimarães, a Carta das Mulheres aos Constituintes com as reivindicações das mulheres à nova Constituição.

Carolina Horta Andrade

Nasceu em Formosa, (GO), em 1983. Graduou-se na Universidade Federal de Goiás (UFG), quando decidiu cursar o mestrado na USP. Sua orientadora, ao perceber seu excelente desempenho acadêmico, recomendou-lhe cursar o doutorado antes mesmo da conclusão do mestrado; assim, o doutorado-sanduíche foi realizado na University of New Mexico, em Albuquerque (EUA). A cientista brasileira atua enquanto professora adjunta da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal de Goiás (UFG). O seu foco de pesquisa é o desenvolvimento de medicamentos eficazes no combate a doenças como tuberculose, malária, esquistossomose e leishmaniose, motivo pelo qual foi contemplada, em 2014, com o prêmio International Rising Talents da L’Oréal e UNESCO.
Dra. Carolina investiga terapias mais eficazes para o tratamento da Leishmaniose, uma doença tropical causada por protozoários que atinge cerca de 12 milhões de pessoas em todo o mundo, com 2 milhões de novos casos a cada ano, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Conforme a pesquisadora, o escassos medicamentos atualmente empregados para o tratamento e que foram descobertos há mais de 50 anos, causam severos efeitos colaterais, não atuam contra algumas formas da doença e podem possuir alto custo. Ciente dessa problemática, conseguiu identificar moléculas bastante promissoras em laboratório, sendo três desses compostos mais efetivos em experimentos in vitro do que o medicamento padrão recomendado atualmente. A pesquisa de Carolina também busca desenvolver fármacos multi-alvo, sendo mais inovadores por atuarem em mais de uma localidade no corpo, evitando o desenvolvimento de resistência ao medicamento e tornando a terapia mais eficaz.

Elisa Frota Pessoa

Nasceu no Rio, em 1921. Interessou-se por ciências quando cursava o segundo ano do ginásio e logo demonstrou apetite para cursar Engenharia, carreira que em sua época não era considerada adequada às mulheres. Oriunda de uma família patriarcal e conservadora, não teve apoio dentro de casa para perseguir sua carreira acadêmica, uma vez que seu pai acreditava que a melhor carreira que uma mulher poderia seguir era o matrimônio. Em 1940, ingressou na atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Graduou-se, em Física em 1942 e trabalhou sem receber remuneração até que, em 1944, foi contratada para lecionar. Mostrando pioneirismo e resiliência para quebrar tabus sociais para a época, em 1951 separou-se do primeiro marido e casou-se novamente. Entre 1942 e 1969 participou ativamente das lutas para vencer o preconceito contra a atuação profissional feminina e o diminuto interesse da sociedade pelo desenvolvimento da ciência. Em 1949, foi uma das fundadoras do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF). Em 1950, publica com Neusa Margem (outra pioneira) o primeiro artigo de pesquisa daquela nova instituição. Elisa fez parte do grupo de pioneiros da física brasileira, que se graduaram no início da década de 40. Em 1965, juntou-se a tantos outros acadêmicos e cientistas importantes na inovadora da Universidade de Brasília. Foi aposentada pelo AI-5 em abril, de 1969, quando lecionava e pesquisava na Universidade de São Paulo (USP). Atuou em universidades européias e norte-americanas. Recusou-se a pedir anistia, mas em 1980 voltou para trabalhar no CBPF, onde permaneceu até sua aposentadoria compulsória em 1991. Foi nomeada professora emérita e continuou no instituto até 1995. Suas contribuições mais importantes na pesquisa em física foram: a introdução da técnica de emulsões nucleares no Brasil e a sua aplicação em vários campos, como física nuclear, biologia, partículas elementares. Um trabalho de sua autoria foi o único estudo brasileiro selecionado para apresentação em plenário na Conferência Internacional de Átomos para a Paz (Genebra 1955). Seu trabalho sobre a não existência da assimetria do decaimento Pion – Muon, que encerrou uma longa disputa sobre o spin do méson Pi, resultou na publicação de dezenas de trabalhos experimentais no Brasil, Estados Unidos e Europa. Fontes: Site http://ctjovem.mct.gov.br/, acessado no dia 22 de setembro de 2005 e diversas entrevistas concedidas por Elisa a Ligia M.C.S.Rodrigues. Elaborado por Lígia M.C.S.Rodrigues e Hildete Pereira de Melo.

Elisama Vieira dos Santos

É professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, na Escola de Ciências e Tecnologia. Aos 29 anos de idade, foi laureada com o prêmio Para Mulheres na Ciência (L’Oréal-Unesco-ABC) com o trabalho Descontaminação de solos contaminados com pesticidas e metais pesados. Quando iniciou sua carreira na área de química, não esperava que fosse trabalhar como pesquisadora, mas sim como professora, uma vez que tinha como objetivo seguir a mesma carreira dos pais. Durante a graduação, teve o seu primeiro contato com a iniciação científica, quando desenvolveu forte interesse por pesquisa. Estagiou no Laboratório de Métodos Analíticos e Meio Ambiente, da UFRN, no escopo de meio ambiente. Graduou-se nas modalidades de licenciatura e bacharelado; e, subsequentemente, ingressou na pós-graduação, obtendo os títulos de mestre em Eletroquímica e Química Ambiental Aplicada; e de doutora, ao concluir o doutorado sanduíche em Química pela UFRN e pela Universidad de Castilla-La Mancha, na Espanha. A sua tese de doutorado, defendida em 2015, teve como finalidade a aplicação de tratamentos eletroquímicos para a descontaminação de solos e águas por vazamento de derivados de petróleo, problema associado a falta de adequação dos postos de combustíveis de Natal/RN às normas de segurança ambiental. Ela ainda desenvolveu trabalhos na área de remediação de pesticidas em solo, sendo esta uma contribuição dos estudos realizados na Espanha em parceria com os professores da Universidade de Castilla-La Mancha. Ao receber o prêmio, Elisama agregou a possibilidade da descontaminação de metais pesados do solo. A motivação para tal estudo foi o rompimento da barragem da mineradora Samarco, em Mariana/MG, em novembro de 2015.
Indústria, mineração e agricultura costumam descartar seus resíduos de maneira inadequada, poluindo solos e corpos d’água. Usando da tecnologia eletroquímica, Elisama estuda como tornar a descontaminação de solos e água mais barata, através da energia elétrica e renovável, como energia solar e eólica. Barateando os custos, a ciência pode sair do laboratório e assim ser empregada em larga escala.

Graziela Maciel Barroso

Nasceu no Rio, em 1912 e faleceu em 2003. Foi uma naturalista e botânica brasileira. Foi educada para ser dona de casa, casando-se quando tinha apenas 16 anos. Devido ao trabalho do marido, morou em várias regiões do país. Com os filhos crescidos, aos 30 anos e com o apoio do seu cônjuge, decidiu voltar a estudar. Trabalhou como estagiária no Jardim Botânico do Rio de Janeiro e foi a primeira mulher a fazer o concurso para ser naturalista do Jardim Botânico. Em 1946, ingressou na instituição e começou a trabalhar com seu marido em sistemática botânica. Aos 47 anos, ingressou no curso de biologia da atual Universidade do Estado do Rio de Janeiro e doutorou-se aos 60 anos, na Unicamp. Foi professora de Botânica e Chefe do Departamento de Biologia Vegetal da Universidade de Brasília desde sua criação até 1969. Dona Graziela é conhecida como a primeira grande dama da botânica brasileira, tendo sido professora de quase todos os botânicos brasileiros, nos seus mais de 50 anos de atividade didática. Em sua homenagem, mais de 25 espécies vegetais identificadas nos últimos anos foram batizadas com seu nome. Graziela publicou três livros, sendo um deles considerado uma referência internacional na área de botânica.

Imagens publicadas com permissão exclusiva para esta exposição. Textos adaptados do Portal Lattes.