Keynote Colonialidade de Saber e a Agenda Internacional para Pesquisas, apresentada por Angélica de Freitas e Silva na X Conferência Abep-UK.

“Bom dia a todas, meu nome é Angélica e é um prazer estar aqui nessa excelente oportunidade proporcionada pela Abep-UK.

Eu gostaria de parabenizar e agradecer a Abep-UK pela iniciativa, e à UCL por gentilmente conceder esse espaço e acolher esse maravilhoso de diálogo. Agradecer também aos colegas aqui na mesa – é um prazer estar aqui buscando diversidade de conhecimento.

Eu sou uma doutoranda cursando o terceiro ano do PhD na Escola de Direito da Universidade de Westminster. Sou também sênior lecturer em direito de construção na Escola de Arquitetura da mesma universidade, onde leciono na graduação e na pós graduação.

Nessa mesa redonda ficamos com a tarefa de fazer o keynote do evento. É muito positivo que façamos esse keynote de forma tão diversa em um evento tão plural, e que percebamos que temos em comum as atividades de expandir e aprofundar conhecimentos, que somos brasileiras e que estamos na Inglaterra.

Antes de iniciar eu gostaria de ler o poema do Binho Barreto – um grafiteiro, fotógrafo e poeta mineiro. Esse poema está publicado no livro Perímetro Urbano.

Perímetro urbano

No perímetro urbano, onde ler ribeirão, rio ou córrego, entenda esgoto. Montanha chamará minério. E onde encontrar vida, procure força de trabalho, consumo e sustento. Onde não houver renda, surgirão invisibilidade e sobrevivência. Onde não tiver nada, uma oportunidade. Onde tiver transporte, engarrafamento. Naquela bruma leve matinal, pó de asfalto.

Para a prefeitura, árvore significará manutenção. Fauna, zoonoses. Onde tiver espaço, procure pavimento, estacionamento ou escoamento da produção. Onde tiver cidade, procure coração. E onde houver coração, escute se está batendo.

Assim, ao invés de discorrer sobre a minha tese, falarei hoje sobre o aspecto filosófico da minha pesquisa como uma ferramenta para discutir pesquisa brasileira no exterior para a pertinência desse keynote. Esse aspecto servirá como um caminho de discussão para refletirmos a repetição de práticas e epistemologias violentas – colonialidades – e como isso está diretamente relacionado ao financiamento e aceitação de pesquisas. Isso acontece em escala global e previne a superação de obstáculos para a que a pesquisa tenha benefícios coletivos reais.

Minha pesquisa propõe uma metodologia decolonial para planejamento energético no Brasil, a partir da compreensão e visibilidade do conceito de Colonialidade como elemento que permeia e condiciona as instituições e as relações sociais.

Colonialidade é um padrão de poder que legitima e reitera opressões históricas no presente. Tais opressões são elementos constitutivos e indissociáveis dos modelos político e de estado vigentes, bem como de suas instituições jurídicas, legislativas e econômicas.

Apesar de não caber, para um keynote, adentrar na complexidade do conceito como liame ético e filosófico que se observa nas instituições e relações sociais no presente (ou no o plano da existência), farei a seguir algumas observações sobre o que é Colonialidade e subdividir o conceito de forma didática na tentativa de facilitar uma compreensão objetiva.

Inicialmente é importante não confundir Colonialidade e colonialismo, em que o último consiste no aparato político, econômico e militar para a exploração da força de trabalho e dos recursos das colônias para o benefício do colonizador. Colonialismo é, portanto, uma denominação político-administrativa/comercial, uma coleção de instituições na dinâmica ente metrópole e colônia que, como sistema político teve fim na segunda metade do século XX. O fato de que colonialismo não existe mais não muda o sistema de hierarquias e privilégios das relações político sociais no presente, haja vista que tais relações reproduzem a ética moderna eurocentrista.

Colonialidade é um elemento constitutivo da modernidade eurocentrista. Segundo o filósofo argentino Enrique Dussel, Colonialidade é o lado obscuro da modernidade. Aqui, me refiro à modernidade como um período iniciado no século XV, para considerar as descobertas proporcionadas pelos primeiros empreendimentos coloniais nas Américas como fundamentais para as elaborações iluministas dos séculos XVII e XVIII. Colonialidade não deriva da modernidade ou vem antes dela, ambas existem em uma relação de co-constituição em que uma não pode existir sem a outra.

Como um elemento constitutivo da modernidade, Colonialidade refere-se a um padrão de poder que opera através da naturalização de hierarquias territoriais, raciais, culturais e epistêmicas, viabilizando a reprodução de relações de dominação. Assim sendo, a utilização desse conceito tem por objetivo problematizar o discurso eurocentrista, haja vista que as narrativas históricas, filosóficas, culturais e sociais adotam perspectivas intra-modernas, mesmo em suas linhas críticas. Essa perspectiva é fundamental para entender como os modelos sociais, psicológicos, políticos e econômicos da modernidade foram impostos ao resto do mundo através dos empreendimentos coloniais, bem como suas repercussões em todos os aspectos da vida até os tempos atuais.

Compreender o conceito de Colonialidade não significa, entretanto, propor um novo paradigma universal que se aplica a todos, mas consolidar conhecimento não-europeu oriundo da ferida colonial e propor uma crítica epistêmica. Assim, a consolidação de um projeto decolonial de fato precisa ser feita fora das narrativas modernas – cristianismo, liberalismo e marxismo, de a forma permitir outras intervenções decoloniais que compreendam as mais diversas dimensões da existência.

Para facilitar a compreensão objetiva deste padrão de opressões, farei agora uma separação didática entre Colonialidades de poder, ser e saber, e discorrer um pouco sobre este último aspecto para elaborar, nesta base, sobre desafios da internacionalização da pesquisa de brasileira no exterior.

Essa separação é uma construção didática porque as diversas formas de opressão são correlacionadas, em que a imposição de instituições políticas ou religiosas, de valores sobre gênero ou raça, ou de fontes exclusivas para legitimação e produção de conhecimento interferem umas nas outras. Alguns exemplos: 1. mulheres negras não ocupam proporcionalmente lugares de decisão política (Colonialidade de ser e de poder); 2. pode haver pesquisa científica financiada por corporações, que, mesmo tal pesquisa seja idônea, pode cair na armadilha de manufaturar consentimento acerca de determinada intervenção no meio ambiente (Colonialidade de poder e de saber); ou, 3. ainda, pessoas que sofreram opressões podem repetir práticas opressoras ao atingirem lugares de poder político e financeiro (Colonialidade de ser, saber e poder).

Colonialidade de poder diz respeito à posição de subalternidade de corpos e lugares que sofreram a experiência de colonização em relação às nações que se beneficiaram política, militar e economicamente do empreendimento colonial, a dita relação de centro e periferia.

Colonialidade de ser tem a ver com a criação do sujeito colonial cuja existência é aniquilada, tem a ver com racismo e patriarcado, em que as percepções ontológicas são substituídas pelo sistema colonial e determinada hierarquização social é imposta. É a dimensão ontológica da Colonialidade de poder.

Por fim, Colonialidade de saber diz respeito à geopolítica do saber, em que todo conhecimento válido emana de Europa e tais valores são universais. Diz respeito também à forma, viabilidade e interesse na produção de conhecimento – como nos compreendemos e que interesses decidimos levar adiante nas instituições de saber. É o aspecto epistemológico da Colonialidade de poder.

Assim, decolonizar o saber é produzir conhecimento buscando outras fontes para sua anunciação e legitimação, atentando-se a quem de fato irá se beneficiar daquele conhecimento. É compreender que a ética universalista iluminista já não deve mais perseverar.

Fui a uma fala do filósofo porto-riquenho Ramón Grosfoguel esses dias e ele disse que o projeto da modernidade permanece através dos tempos também porque dentro da academia continuamos servindo à manutenção das relações de poder, uma vez que a pesquisa se concentra em referenciar autores europeus, mesmo que façamos posicionamentos críticos; que as pesquisas sejam financiadas por interesses corporativos ou militares; e que apesar de haver ampla discussão sobre direitos ambientais ou civis, continuamos trabalhando em um projeto de exaustão de recursos em benefício do monopólio financeiro transnacional.

A crítica decolonial propõe que não existe esse conhecimento delocalizado, descorporalizado, legitimado pela grande entidade da ciência, e que se aplica a todos, como a universalidade moderna impõe. Essa arrogância epistêmica é violenta e, ao mesmo tempo que prejudica a maioria diversa, beneficia a manutenção de desigualdades.

Descolonizar o saber encontra, então, barreiras em financiamento e aceitação da pesquisa. Todos temos boletos para pagar e não podemos deixar de trabalhar nas oportunidades que são dadas. Elaborar projetos demanda que o façamos conforme o edital, ou como o órgão que financiará o projeto precisa. Muitas vezes, só estamos na pesquisa porque uma oportunidade de trabalho que se apresentou, não porque um dom mágico se manifestou quando uma maçã lhe caiu na cabeça. A proposta de trazer outras epistemologias, isto é, outras formas de compreender o saber, consiste em observar se as fontes que utilizamos estão de fato representando a realidade da maioria, ou se são elaborações teóricas dentro de uma agenda de internacionalização de capital e de exaustão de recursos.

É importante ter atenção para evitar fazer pesquisa através da mainstreamização da luta, em que pautas legítimas de movimentos populares são incluídas como justificativas para ações violentas, como os discursos de desenvolvimento e industrialização. Acredito que um grande passo decolonial é trazer narrativas periféricas e autores oriundos do terceiro mundo, especialmente de mulheres negras, indígenas, trabalhadoras rurais, populações ribeirinhas – e conceder-lhes lugares de fala (não estatísticas) em projetos que já estão em andamento e nos projetos futuros. Assim, a produção de conhecimento legítimo pode ser feita dentro e fora da academia.

Não há aqui uma intenção de negar ou odiar tudo que vem sendo feito na era da ética moderna, não podemos jogar o bebê com a água da bacia. Essa conversa não é uma anti-modernindade, mas sobre uma mudança ética.

Temos sim como produzir pesquisa incluindo fontes outras, periféricas e realistas. A realidade é que a grande maioria das pessoas vive sem ocupar lugares de poder, de determinação política, e de autoria de conhecimento. A grande maioria das pessoas vive em comunidades, são mulheres indígenas, trabalhadoras rurais, pessoas negras, diversas; que criam filhos, provém sua renda do trabalho informal, sem imposto de renda ou plano de previdência. Porque, então, persistimos em fazer pesquisa imersos na imaginação liberal de separação do conhecimento de corpos e lugares?

Pra mencionar o Paulo Freire, repetimos opressões porque só fomos ensinados a agir como o opressor, só sabemos agir como o opressor. Reforçando, Audre Lorde disse que the master’s tools will never dismantle the master’s house.

Mas a academia é the masters house, esse espaço com referência iluminista. A pesquisa, entretanto, não precisa ser universalizadora lacração, o novo paradimgma que se aplica a tudo e a todos. Essa visão é colonial. A academia pode ir-se transformando, para eliminar violências epistemológicas que viabilizam a manutenção de lugares de poder. Assim, acredito que façamos uma ciência voltada para o povo brasileiro, para de fato compreender a partir da nossa realidade local, da nossa ferida colonial, quais são as melhores formas para termos um Brasil em que as pessoas tenham como se emancipar, tenham acesso à tecnologia, alimento, terra, enfim, um Brasil mais para Wakanda que Mad Max. Isso deve ser feito não importando a sua fonte financiadora. Perguntas que ficam: quem banca a nossa pesquisa quer de fato uma melhora coletiva, ou tem interesses corporativos ou militares no Brasil? Quem banca a nossa pesquisa é do Brasil? Quem está se beneficiando?

Por fim, a diversidade epistemológica toma esse lugar, fontes diversas são possibilitadas e as vozes da maioria podem ser representadas na pesquisa científica, de forma que seus resultados representem intervenções em corpos, lugares, e relações conforme a realidade local e de maneira não violenta.

Pesquisar é um ato político e ter o privilégio de estar aqui não deve significar reiterar opressões por aceitação e financiamento, mas questionar se essa ética moderna – colonial – patriarcal – militarista – de capital deve continuar delimitando o que é ou o que não é a ciência, impossibilitando todo esse aparato institucional de, de fato, interromper opressões coloniais.”

 

Angelica de Freitas e SilvaAngélica de Freitas e Silva é doutoranda na University of Westminster Law School, em Londres, sob a orientação da Dra. Radha D’Souza. Sua pesquisa propõe uma metodologia decolonial para planejamento energético no Brasil. Ela é também senior lecturer no Department of Property and Construction da mesma universidade, onde leciona na graduação e na pós-graduação.

Angélica foi uma das keynote speakers na X Conferência da Abep-UK, ocorrida na UCL no dia 10 de março de 2018. Sua apresentação intitulada Colonialidade de Saber e a Agenda Internacional para Pesquisas trouxe reflexões filosóficas e práticas a respeito da pesquisa brasileira no exterior. Ao dialogar sobre alguns conceitos centrais do desenvolvimento de seu doutorado, a pesquisadora trouxe o foco para a repetição, dentro da academia, de práticas e epistemologias violentas – colonialidades – e como isso está diretamente relacionado ao financiamento e aceitação de pesquisas. Centralmente, a crítica decolonial propõe que não existe esse conhecimento deslocalizado, descorporalizado, legitimado pela exclusiva entidade da ciência, e que se aplica a todos, como a universalidade moderna impõe. Essa arrogância epistêmica é violenta e, ao mesmo tempo que prejudica a maioria diversa, beneficia a manutenção de desigualdades. A proposta de trazer outras epistemologias, isto é, outras formas de compreender o saber, consiste em observar se as fontes utilizadas estão de fato representando a realidade da maioria, ou se são elaborações teóricas dentro de uma agenda de internacionalização de capital e de exaustão de recursos. Tal reflexão é especialmente necessária no momento presente, sendo um chamado para que pesquisadores brasileiros no exterior observem o real impacto de seus trabalhos na melhora das instituições e condições de vida no Brasil e no planeta.

Para conhecer mais sobre a pesquisa da Angélica, sobre a comunidade de argumentação decolonial ou para obter o texto na íntegra, envie um email para defreia@westminster.ac.uk.