6 A Universidade/College

6.1. Estrutura Acadêmica (Pós-Graduação)

        E prática comum na vida acadêmica britânica deixar que o estudante ou pesquisador trace, ele próprio, seu roteiro de trabalho. Por isto, não espere que seu supervisor vá indicar as direções em que seu trabalho pode ou deve evoluir. Esse sistema é conveniente se você já tem uma proposta de trabalho razoavelmente amadurecida – o que não acontece na maioria dos casos. Diferentemente do estudante do curso de mestrado, o aluno de PhD não é obrigado a fazer cursos, o que não o impede de assistir aos que julgar convenientes. Entretanto, é muito provável que seu orientador ou departamento recomende que você frequente alguns seminários, pelo menos durante o primeiro ano. Em alguns casos, os cursos são obrigatórios no primeiro ano, iniciando-se a pesquisa propriamente dita no segundo ano. Neste caso, verifique se o grau de mestre obtido no Brasil dá direito a isenção de alguns dos requerimentos.

Geralmente a matrícula não é feita diretamente para o doutorado. Mesmo com o título de mestrado no Brasil muitas pessoas têm de passar pelo menos um ano no mestrado daqui, que funciona como uma espécie de teste de qualificação para o PhD. É muito importante a avaliação do seu orientador durante o primeiro ano, já que normalmente ele(a) é quem dá a palavra final se o trabalho realizado possui qualidade para se constituir em uma tese de doutorado. A sua relação com a universidade ou college se dá quase que exclusivamente através do(a) orientador(a). Fica a cargo do estudante solicitar a ele(a) colaboração e/ou opinião. Mesmo que possa parecer desnecessário, é bom manter contatos periódicos para eventuais correções no trabalho de pesquisa. Não há uma pressão para resultados imediatos, mas, diferentemente do Brasil, haverá expectativa para que você apresente com frequência, em curto espaço de tempo, alguma forma de produção textual ou evidência dos experimentos que você está realizando.

Dica Útil:

            Para uma ideia mais geral de como funciona o doutorado no Reino Unido, recomendamos a leitura de: Phillips, E.M.; Pugh, D.S. (2000) How to Get a PhD. Buckingham: Open University Press.

6.2. Estrutura Acadêmica (Graduação)

 O processo de seleção funciona através da application (candidatura) que começa por volta do mês de outubro. Quanto mais cedo você se inscrever, mais chances de conseguir uma vaga e possivelmente uma bolsa. Isso vale principalmente para cursos e universidades onde as demandas são mais altas do que as ofertas. O processo é simples: o primeiro passo é candidatar-se no site do Universities and Colleges Admissions Service (www.ucas.com), que é o orgão central gerenciador de candidaturas universitárias no Reino Unido. Esse será o portal de comunicação inicial entre você e as universidades que escolheu.  Nesse processo, será considerado o seu histórico escolar completo, além de uma carta de recomendação e do seu personal statement (uma redação onde você descreve as razões por escolher determinado curso e universidade). Além disso, vale a pena conferir os níveis necessários de inglês por meio de testes como IELTS ou TOEFL. As novas regras para emissão de visto para o Reino Unido estabelecem que os estudantes estrangeiros só poderão inscrever-se como full-time student (curso integral) em uma instituição registrada no UKBA (www.ukba.homeoffice.gov.uk). Portanto, verifique se a sua instituição faz parte desse grupo.

A escolha da universidade nem sempre é fácil. Apesar de conter algumas limitações, alguns rankings de universidades podem servir como boa estratégia de seleção preliminar. Os principais são o Times Higher Education e o Guardian University Guide. O British Council também fornece muitas informações importantes sobre bolsas e o processo seletivo. Vale sempre a pena tentar contatar estudantes brasileiros no Reino Unido através da ABEP-UK (www.abep.org.uk) ou das sociedades brasileiras existentes em algumas universidades. A principal diferença entre universidades brasileiras e britânicas está relacionada com a carga horária que é maior no Reino Unido, pois a maioria dos cursos tem duração de 3 anos.

Existem os Foundation Courses, Foundation Year, Access ou Bridging Courses, que  são cursos voltados para a preparação dos estudantes para o nível superior. Geralmente são exigidos para estudantes com mais de 21 anos (mature students), com duração de um ano letivo. O Higher National Certificate (HNC) e o Higher National Diploma (HND) são cursos de qualificação superior, com duração de 1 ou 2 anos, relacionados à carreira escolhida e focados no desenvolvimento de habilidades e competências específicas para a prática profissional. Eles são equivalentes à primeira fase de uma graduação sequencial ou tecnológica no Brasil. Foundation Degree é um curso superior profissionalizante, validado por universidades, e desenvolvido em parceria com entidades empregadoras. Bachelor’s Degree é o diploma mais comum e similar aos das universidades brasileiras (Bacharelado).

O sistema de notas britânico é baseado em créditos que são completados por um número determinado de matérias que cada estudante tem que concluir a cada ano. Esses créditos são convertidos em notas através de essays (redações), provas e/ou apresentações. Cada universidade tem a sua grade acadêmica. Dependendo do curso, você terá que fazer uma dissertação no último ano. O tamanho desse trabalho varia de acordo com o curso. Certos cursos, como os de língua estrangeira, por exemplo, requerem um ano no exterior.

Os cursos, dependendo do programa, são divididos em lectures, que são aulas com a presença de todos os alunos, e seminars ou tutorials, que são compostos por grupos pequenos onde o intuito principal é o debate acadêmico. Na áreas científicas os alunos também podem ter aulas de laboratório. De forma geral, o sistema acadêmico britânico possui a tendência de incentivar a independência dos alunos.

Os estudantes estrangeiros têm acesso aos mesmos recursos oferecidos aos estudantes britânicos, com exceção dos auxílios financeiros. Diferentemente do que ocorre no Brasil, onde os cursos têm um valor relativo à mensalidade, no Reino Unido calcula-se uma anuidade que, na maioria das vezes, é cobrada antecipadamente. No período de produção deste manual, os valores para estudantes de HND e HNC (Graduação Sequencial) foram de £5.000 – £9.000 por ano, e, para os de Bachelor’s Degree de £8.000 – £12.000. Com relação aos valores de moradia, o mesmo se aplica aos cálculos dos alunos de pós-graduação contidos neste manual.

6.3. Students’ Union

 O maior objetivo das Students’ Union é representar democraticamente os interesses dos seus afiliados. A filiação é automática, através da matrícula. Estudantes que rejeitam sua filiação ainda têm o direito de usar as instalações oferecidas pela Union porque elas são para benefício de todos os estudantes da universidade, não somente para os membros da Union.

Além das atividades políticas, a maioria das Unions também oferece assistência na organização de grupos (societies); realiza trabalho voluntário; possui centros de aconselhamento e suporte pessoal e profissional (helplines, divulgação de oportunidades de emprego, treinamento para elaboração de currículos, preparação para entrevistas etc.); além de atividades sociais para o bem estar e integração dos estudantes, tais como sessões de yoga, aulas de salsa ou tango, sessões de filmes, festas, dentre outras atividades.

As Unions recebem um fundo anual da universidade às quais estão vinculadas e complementam suas receitas através da venda de alguns produtos e serviços (canecas, artigos escolares, encadernação de teses etc.), das taxas simbólicas cobradas nas atividades promovidas e do auxílio de patrocinadores. A maioria da Students’ Unions é vinculada à National Union of Students (NUS). Mais informações em: www.nus.org.uk.

6.4. Idiomas

 Caso você sinta que precisa de reforço na língua inglesa, principalmente na parte escrita, existem cursos para este fim específico nas universidades. No geral, esses cursos são pagos e podem ser de curta ou longa duração. Em relação a outros idiomas, algumas faculdades e departamentos oferecem cursos gratuitos em algumas línguas importantes para a área, tais como alemão instrumental para historiadores ou japonês para engenharia e business. Além disso, cada universidade tem um Language Centre (Centro de Línguas), que oferece ensino regular de idiomas variados a preços acessíveis.

6.5. Outros Serviços

 As universidades oferecem uma série de outros serviços úteis. Para os diversos aspectos da preparação para o mercado de trabalho, tais como a prospecção de oportunidades profissionais oferecidas pelo seu título, treinamento para processos seletivos, oportunidades de estágio e emprego, contatos com outros profissionais estabelecidos na sua área para aconselhamento profissional, dentre outros, cada universidade possui um Career Service, cujo serviço é gratuito e pode ser usado por qualquer pessoa regularmente matriculada tanto na graduação quanto na pós-graduação. Ainda em termos de desenvolvimento pessoal e profissional, a maioria das universidades oferece workshops tais como Time Management (como administrar seu horário de forma efetiva), How to Make the Most of Meetings (como tirar o maior proveito de reuniões), How to Network (como fazer seu network profissional), How to Cope with Stress (como administrar stress), Assertive Communication (como se comunicar assertivamente), Academic Writing (escrita acadêmica), dentre muitos outros cursos do gênero. Há também um programa para o desenvolvimento de IT Skills, que vai desde como aprender a mexer com o Excel até a usar o programa Matlab ou a montagem e administração de um website. Tenha em mente que na maioria das vezes cabe ao aluno procurar se informar sobre esses serviços, principalmente no caso dele não ter participado da induction week.[1] A maioria dos cursos é gratuita.

O processo de adaptação cultural e pressão do curso podem abalar mesmo as pessoas mais bem estruturadas emocionalmente e psicologicamente. Assim, não hesite em utilizar os serviços prestados pelos Couselling Centres (centros de aconselhamento), pois os cursos e assistência que eles oferecem são bastante úteis, além de gratuitos. Caso você precise de acompanhamento psicológico individual, a universidade geralmente cobre gratuitamente apenas as primeiras sessões (algo em torno de seis encontros). No entanto, enquanto estudante regularmente matriculado, você terá direito a um preço diferenciado caso precise continuar com o tratamento. Outra alternativa são os helplines, que, em geral, estão disponívels 24hs e também são gratuitos. Por fim, na maioria das universidades, os estudantes de graduação e pós-graduação são alocados com um Personal Tutor ou Graduate Tutor. Qualquer problema emocional, financeiro, com o orientador, com a pesquisa, enfim, problema de qualquer natureza, ele(a) é a pessoa certa para te ajudar. O(A) Tutor vai te apoiar e orientar em qualquer situação dentro da mais estrita confidencialidade. Ele(a) é uma pessoa neutra escolhida justamente para mediar suas necessidades e as exigências e imposições da Universidade/College/Departamento, portanto, seu maior aliado(a) independente do tipo de problema que você esteja enfrentando.

6.6. Estabelecimento de Círculos Sociais e Profissionais

6.6.1. Contato Com Estudantes Brasileiros

Além dos colegas que você eventualmente já conheça, é sempre agradável estar em contato com outros conterrâneos. Neste sentido, existem basicamente duas opções:

a)    ABEP-UK: A ABEP-UK foi fundada em 16/02/1980, como resultado do contato de estudantes brasileiros em London, por ocasião de um abaixo-assinado reivindicando a democratização do Brasil. Desde então, ela vem servindo como importante elemento de integração da comunidade acadêmica brasileira residente no Reino Unido. Seu principal objetivo é representar os interesses de seus associados junto às autoridades e entidades brasileiras e britânicas ligadas à pós-graduação. Para manter os associados informados sobre os acontecimentos pertinentes à vida do estudante e pesquisador brasileiro no Reino Unido, a ABEP-UK possui um mailing list com uma extensa lista de cadastrados na qual são debatidas e divulgadas periodicamente notícias e oportunidades de interesses políticos, sociais e acadêmicos comuns. Essa lista não é restrita a membros da ABEP-UK e qualquer um pode participar. Recomenda-se increver-se na lista antes mesmo de se sair do Brasil, já que muitas de suas dúvidas podem ser esclarecidas por membros da lista, caso as informações neste manual e a leitura do material disponível nos outros meios eletrônicos da ABEP-UK não tenham lhe auxiliado. A ABEP-UK também possui twitter, uma página no facebook e e-mail, que é o canal mais direto de contato com a Diretoria. Essas e outras informações sobre a ABEP-UK estão disponíveis em: www.abep.org.uk.

b)   Brazilian Society: Em universidades com grande número de brasileiros existem as Brazilian Societies, que promovem eventos sociais, culturais e acadêmicos voltados para brasileiros. Esses eventos também são abertos para pessoas de outras nacionalidades, mas a maioria do público é de brasileiros. Procure saber se existe uma Brazilian Society na sua universidade através da Students’ Union. Caso não exista, uma alternativa são as Latin-American Societies, que atendem um público mais amplo no qual se incluem os brasileiros.

6.6.2. Contato Com Estudantes Estrangeiros

            Embora seja cômodo se aproximar de colegas conterrâneos durante o processo de adaptação, é fundamental que se faça um esforço para se integrar à cultura britânica e interagir com pessoas de outras nacionalidades, pois esta é necessariamente a única maneira de você aproveitar ao máximo sua experiência no exterior. É dessa forma que você vai aperfeiçoar seu inglês, entender as dificuldades da relação com o outro e como administrar essas diferenças. Enfim, é assim que você vai expandir seus horizontes pessoais e as oportunidades profissionais. Neste último aspecto em particular, tenha em mente que você vai conhecer gente dentro e fora do seu curso que vai estar trabalhando na mesma época que você. Criar um bom network profissional com pessoas da sua e de outras áreas trará uma diferença substancial para seu desenvolvimento e sucesso profissional dentro e fora do Brasil.

            Relacionar-se com o outro, no entanto, não é uma tarefa fácil. A cultura britânica é bastante diferente da brasileira e você muito provavelmente vai sentir dificuldade de interagir e se integrar no começo. Às vezes, é mais fácil se aproximar de pessoas de outras nacionalidades, pois elas estão na mesma situação vulnerável que você – o que não quer dizer, no entanto, que suas dificuldades de aproximação serão significamente amenizadas. Assim, é importante que você esteja consciente de seus propósitos ao fazer uma decisão dessa magnitude. Morar e estudar no exterior é uma experiência que vai mudar sua vida para melhor em todos os sentidos, mas você precisa estar determinado em lutar para superar as dificuldades. Você vai se sentir bastante deslocado e frustrado nos primeiros contatos e reuniões sociais com os estrangeiros, afinal, a “casa” é deles e aqui você é o “gringo”. No entanto, tenha em mente que esse será apenas um momento de transição, portanto, uma parte do processo apenas. Uma vez que você passar por essas dificuldades iniciais, você terá relações pessoais e profissionais tão fortes e relevantes quanto as que você construiu no Brasil.


[1] No começo do ano letivo (final de setembro ou começo de outubro dependendo da universidade) os estudantes participam de algumas sessões para saber sobre os serviços oferecidos pela universidade/college e como eles funcionam.